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Prefácio
O
fenómeno mais importante do revivalismo católico durante a 1ª
República Portuguesa foi, sem dúvida, o das chamadas «aparições»
de Fátima. De 13 de Maio a 13 de Outubro de 1917, três pequenos
pastores do lugar de Aljustrel (freguesia de Fátima, concelho de Vila
Nova de Ourém), de nomes Lúcia Santos, Jacinta Marta e Francisco
Marta, afirmaram ter-lhes aparecido, mensalmente, Nossa Senhora, no
sítio da Cova da Iria, transmitindo-lhes um conjunto de mensagens de
carácter pessoal, nacional e internacional.
O sucesso das «aparições» de Fátima foi precedido por alguns
fracassos. A eclosão da 1ª Grande Guerra favorecera a intensificação
da fé em geral e do culto mariano em particular, quer em Portugal quer
em outros países católicos. Nas folhas periódicas da época
relatavam-se casos de «aparições» da Virgem Maria a donzelas e a
soldados, por vezes em conexão com a luta armada. Em Portugal, teve
certa difusão o acontecimento do Barral (concelho de Ponte da Barca,
distrito de Viana do Castelo), «aparição» de Nossa Senhora a um
pastorinho, Armando Severino Alves, em 10 de Maio de 1917, com diálogo
entre a Virgem e o vidente que se pode comparar aos diálogos de
Fátima. Por outro lado, a primeira versão dos acontecimentos de 13 de
Outubro, em Fátima, relatava que a Virgem dissera à vidente Lúcia que
a guerra ia acabar nesse mesmo dia.
É difícil averiguar hoje com rigor o que se passou na Cova da Iria
nesses meses de Maio a Outubro. Diversas interpretações têm sido
propostas, desde a identificação de Nossa Senhora com a mulher do
major Genipro da Cunha de Eça da Costa Freitas e Almeida - que, vestida
de branco, passeava pelos campos - até à tese «ovnilógica»,
defendida com variantes por Fina d'Armada, Joaquim Fernandes e Seomara
da Veiga Ferreira. Também José Rodrigues Miguéis, num romance famoso (O
Milagre segundo Salomé, 1974), apresentou a sua versão, romanceada, do que se
teria passado, o mesmo fazendo Natália Correia (A Pécora, 1983). Todavia,
fossem os factos independentes da acção do clero, fossem eles uma
criação sua, a verdade é que a Igreja Católica os explorou
brilhantemente, conseguindo extrair deles todo um conjunto de
interpretações e de consequências que exerceram influência grande
sobre as massas, contribuindo para um revigoramento da fé.
As repercussões do acontecimento foram quase imediatas, passando a
acorrer ao local - sobretudo em Maio e em Outubro de cada ano - milhares
de peregrinos. A intervenção das autoridades, procurando desmistificar
o acontecimento e impedir as peregrinações, mostrou-se ineficaz,
contribuindo somente para criar uma atmosfera de ódio e calúnia em
tomo do probo administrador do concelho de Vila Nova de Ourém, Artur de
Oliveira Santos. O prelado do novo bispado de Leiria, D. José Alves
Correia da Silva, em funções desde 1920, compreendeu desde logo o
partido que poderia tirar das «aparições», tanto do ponto de vista
espiritual como material, dando-lhes todo o apoio. Sucederam-se os
depoimentos e as apologias, correlacionando-se as «aparições» com a
descristianização veiculada pela República e estabelecendo-se uma
ligação íntima entre o fenómeno religioso e a oposição ao regime.
Num dos hinos de Fátima dessa época falava-se na «Pátria envilecida»
pela República, noutro na salvação do «mal» que afligia a «lusa
terra». Em Outubro de 1930, em plena ditadura, as «aparições» de
Fátima foram oficialmente declaradas pela Igreja «dignas de
crédito», o que implicava o reconhecimento do culto local.
No presente livro, Fina d'Armada e Joaquim Fernandes voltam ao assunto e
às explicações possíveis, enriquecendo-as com novos argumentos
reveladores de investigação e erudição dignas de nota. Rico como é
em hipóteses interpretativas, o fenómeno da Cova da Iria conjugou
provavelmente elementos das várias teses propostas. Isso torna-o
fascinante, convidando especialistas de diversas ciências e
paraciências - a história, a sociologia, a antropologia, a teologia
cristã, o espiritismo, a «ovnilogia» e outras - a continuarem a
debruçar-se sobre ele, na busca de uma «verdade» aceitável pelo
maior número de pessoas. Bem hajam, por isso, os autores.
A. H. de Oliveira Marques |