a propósito do caso de 1 de Junho de 2004
Celestes  Ignorâncias

Um texto amavelmente cedido por
 Joaquim Fernandes
 *
(CTEC)

   A Marquesa de Alorna, que aprendemos a conhecer pelo pseudónimo literário de Alcipe, não teve rebuço em desabafar ao seu confessor, em finais do século XVIII, que preferia “um sábio hereje a um santo ignorante”. Perante o desconcerto de opiniões, geralmente orfãos de factos, que ouvimos a pretexto do fenómeno celeste da noite do dia 1 de Junho de 2004, permito-me parafrasear a nossa poetisa pré-romântica Dª Leonor de Almeida e preferir “um civil hereje a um sábio ignorante”.
     De facto, o que quer que seja que violou o nosso espaço aéreo, não rompeu apenas o hímen de uma suposta virgindade das nossas fronteiras. Sobressaltou o inconsciente colectivo nacional, a face nocturna do imaginário humano, escalpelizada por antropólogos como Gilbert Durand ou Gaston Bachelard. Os medos mais arcaicos emergem, fatalmente, quando episódios inesperados e anómalos irrompem na sonolência do quotidiano, na fotocópia dos dias. É natural que algumas das hipóteses adrede produzidas, por mais absurdas e distantes dos factos, se assumam, inconscientes, como mecanismos de defesa face à ameaça que o desconhecido e o incontrolável representam para a nossa espécie.
     Alguns inquietos e escandalizados fautores de opinião, nos media nacionais, tolhidos pelo significado sociológico do imenso auditório celeste, insistem em traduzir o acrónimo ovni por nave espacial extraterrestre, para mais facilmente renegarem, pelo ridículo, fenómenos ainda não catalogados pela Ciência. Assim se recupera a fábula da raposa e das uvas, agora numa versão socio-técnica hodierna, quando algo se escapa pelos interstícios dos nossos sempre incompletos saberes. Afinal, nada de novo sob o Sol. Apenas temos por provável que a incerteza sobre a essência deste tipo de eventos aerospaciais e paradoxais resistirá, salvo alguma súbita surpresa que a lucidez humana nos possa ofertar.
     Não se regozijem, todavia, os que possam vislumbrar nestas observações um reducionismo, puro e definitivo, à componente simbólica, afecta ao enigma volante que mobilizou os sentidos, e a forma mentis de, quiça, milhares de pessoas, de olhos no breu do espaço. Esse firmamento de que o padre António Vieira já desconfiava, nos idos de Seiscentos, crismando-o, do alto do púlpito, de “pura mentira do céu, que não era nem azul nem céu”.
     Os documentos objectivos ( do radar às imagens) sobre o(s) intruso(s) celestes transformaram os testemunhos subjectivos, de milhares de cidadãos em involuntários e anónimos participantes de um facto. O envolvimento colectivo no espectáculo de 1 de Junho releva também das relações recíprocas entre a ciência, a sociedade, incluindo os media, e o poder político; implicam com a gestão e a partilha de novos eventuais conhecimentos e aquisições que importam à comunidade.
     No que respeita à ciência, a avaliação das informações não se joga apenas na exploração das hipóteses físicas, mais plausíveis e estimulantes, ou a partir de causas naturais ou artificiais que possam ser discernidas, com rigor. As dimensões emocionais e as representações sociais e culturais sobre o evento dessa noite de todas as perplexidades, podem e devem ser eleitas em qualquer estudo sério e competente. A percepção individual e colectiva, associada às crenças socializadoras, que se projectam a propósito destas manifestações singulares, revelam o modo como a cultura contemporânea reage à irrupção do sagrado, na fórmula de Mircea Eliade, do mysterium tremendum do fundo do Tempo.

*Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, Universidade Fernando Pessoa.