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A Marquesa de Alorna, que
aprendemos a conhecer pelo pseudónimo literário de
Alcipe, não teve rebuço em desabafar ao seu
confessor, em finais do século XVIII, que preferia
“um sábio hereje a um santo ignorante”. Perante o
desconcerto de opiniões, geralmente orfãos de
factos, que ouvimos a pretexto do fenómeno celeste
da noite do dia 1 de Junho de 2004, permito-me
parafrasear a nossa poetisa pré-romântica Dª
Leonor de Almeida e preferir “um civil hereje a um
sábio ignorante”. De
facto, o que quer que seja que violou o nosso
espaço aéreo, não rompeu apenas o hímen de uma
suposta virgindade das nossas fronteiras.
Sobressaltou o inconsciente colectivo nacional, a
face nocturna do imaginário humano, escalpelizada
por antropólogos como Gilbert Durand ou Gaston
Bachelard. Os medos mais arcaicos emergem,
fatalmente, quando episódios inesperados e
anómalos irrompem na sonolência do quotidiano, na
fotocópia dos dias. É natural que algumas das
hipóteses adrede produzidas, por mais absurdas e
distantes dos factos, se assumam, inconscientes,
como mecanismos de defesa face à ameaça que o
desconhecido e o incontrolável representam para a
nossa espécie. Alguns
inquietos e escandalizados fautores de opinião,
nos media nacionais, tolhidos pelo significado
sociológico do imenso auditório celeste, insistem
em traduzir o acrónimo ovni por nave
espacial extraterrestre, para mais facilmente
renegarem, pelo ridículo, fenómenos ainda não
catalogados pela Ciência. Assim se recupera a
fábula da raposa e das uvas, agora numa versão
socio-técnica hodierna, quando algo se escapa
pelos interstícios dos nossos sempre incompletos
saberes. Afinal, nada de novo sob o Sol. Apenas
temos por provável que a incerteza sobre a
essência deste tipo de eventos aerospaciais e
paradoxais resistirá, salvo alguma súbita surpresa
que a lucidez humana nos possa ofertar.
Não se regozijem,
todavia, os que possam vislumbrar nestas
observações um reducionismo, puro e definitivo, à
componente simbólica, afecta ao enigma volante que
mobilizou os sentidos, e a forma mentis de,
quiça, milhares de pessoas, de olhos no breu do
espaço. Esse firmamento de que o padre António
Vieira já desconfiava, nos idos de Seiscentos,
crismando-o, do alto do púlpito, de “pura mentira
do céu, que não era nem azul nem
céu”. Os documentos
objectivos ( do radar às imagens) sobre o(s)
intruso(s) celestes transformaram os testemunhos
subjectivos, de milhares de cidadãos em
involuntários e anónimos participantes de um
facto. O envolvimento colectivo no espectáculo de
1 de Junho releva também das relações recíprocas
entre a ciência, a sociedade, incluindo os media,
e o poder político; implicam com a gestão e a
partilha de novos eventuais conhecimentos e
aquisições que importam à
comunidade. No que
respeita à ciência, a avaliação das informações
não se joga apenas na exploração das hipóteses
físicas, mais plausíveis e estimulantes, ou a
partir de causas naturais ou artificiais que
possam ser discernidas, com rigor. As dimensões
emocionais e as representações sociais e culturais
sobre o evento dessa noite de todas as
perplexidades, podem e devem ser eleitas em
qualquer estudo sério e competente. A percepção
individual e colectiva, associada às crenças
socializadoras, que se projectam a propósito
destas manifestações singulares, revelam o modo
como a cultura contemporânea reage à irrupção do
sagrado, na fórmula de Mircea Eliade, do
mysterium tremendum do fundo do Tempo.
*Centro
Transdisciplinar de Estudos da Consciência,
Universidade Fernando Pessoa.
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